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Nefrolitíase: Como a Alimentação Influencia a Formação de Cálculos Renais

Introdução

A nefrolitíase, também denominada litíase renal ou cálculo renal, é uma das doenças urológicas mais prevalentes no mundo contemporâneo. Estima-se que entre 5% e 10% da população mundial seja acometida, e aproximadamente 12% dos indivíduos formarão pelo menos um cálculo renal ao longo da vida. A faixa etária mais afetada situa-se entre 20 e 50 anos, com aumento progressivo da incidência nas últimas décadas.

Historicamente havia predominância no sexo masculino, porém essa diferença tem diminuído. Observa-se maior prevalência em regiões quentes e áridas, onde a perda hídrica favorece maior concentração urinária. A obesidade também representa fator de risco significativo, especialmente em mulheres com índice de massa corporal elevado.

A taxa de recorrência é elevada: cerca de 15% dos pacientes apresentam novo episódio no primeiro ano, 35–40% em cinco anos e até 50% em dez anos. Aproximadamente 30% necessitam hospitalização e 10–15% requerem intervenção médica para remoção do cálculo.

A maioria dos casos decorre de alterações metabólicas primárias, sendo a hipercalciúria idiopática responsável por cerca de 60% dos diagnósticos. Apenas pequena parcela apresenta doença sistêmica associada. A formação do cálculo depende da presença de fatores que promovem supersaturação urinária, nucleação e agregação cristalina — processo denominado cascata litogênica. Entre esses fatores, a dieta exerce papel central.


Fatores Dietéticos na Cascata Litogênica

A alimentação interfere diretamente na composição urinária, modulando excreção de cálcio, oxalato, citrato, ácido úrico, magnésio e volume urinário. Alguns nutrientes atuam como promotores da cristalização, enquanto outros possuem efeito protetor.


Cálcio

A maioria dos cálculos renais é composta por oxalato de cálcio. Entretanto, a restrição indiscriminada de cálcio não é recomendada. Estudos prospectivos demonstraram que indivíduos com maior ingestão de cálcio dietético apresentaram menor risco de formação de cálculos quando comparados àqueles com ingestão reduzida.

O mecanismo envolve a ligação do cálcio ao oxalato na luz intestinal, formando complexo insolúvel eliminado pelas fezes. Quando a ingestão de cálcio é baixa, há maior absorção intestinal de oxalato, elevando sua excreção urinária e favorecendo supersaturação.

Além disso, ingestão insuficiente de cálcio pode contribuir para balanço negativo do mineral e maior risco de osteopenia, especialmente em pacientes com hipercalciúria persistente.


Sódio

O aumento da excreção urinária de sódio está diretamente associado à elevação do cálcio urinário. Essa relação decorre de mecanismos de transporte tubular renal, nos quais sódio e cálcio compartilham vias de reabsorção.

Dietas hipersódicas promovem hipercalciúria e aumentam o risco de formação de cálculos. Recomenda-se restrição de sódio, especialmente em pacientes com hipernatriúria identificada em urina de 24 horas.


Potássio

A ingestão adequada de potássio associa-se à redução do risco de nefrolitíase. Alimentos ricos em potássio, como frutas e vegetais, contribuem para maior excreção urinária de citrato, um importante inibidor da cristalização.

Além disso, o potássio pode reduzir a excreção de cálcio urinário e favorecer ambiente urinário menos propício à formação de cristais.


Oxalato

O oxalato urinário exerce papel determinante na formação de cristais de oxalato de cálcio. Pequenos aumentos na sua concentração podem elevar de forma exponencial a tendência à supersaturação.

O oxalato urinário resulta de múltiplas fontes: ingestão alimentar, síntese endógena hepática, metabolismo intestinal e manuseio renal. A dieta contribui com parcela variável, mas excessos alimentares podem impactar significativamente pacientes predispostos.

Outro aspecto relevante é o uso elevado de vitamina C, cuja metabolização pode aumentar a produção endógena de oxalato.


Magnésio

O magnésio parece exercer efeito modulador na cristalização do oxalato de cálcio, possivelmente competindo com o cálcio na formação de complexos solúveis. Embora o mecanismo não esteja completamente esclarecido, ingestões adequadas parecem ter efeito protetor.


Proteínas Animais

O consumo elevado de proteína animal favorece múltiplos mecanismos litogênicos. A carga ácida da dieta aumenta a excreção de cálcio e reduz o citrato urinário. Há também aumento da excreção de ácido úrico.

A ingestão excessiva pode induzir acidose metabólica leve, aumentando reabsorção óssea, elevação do calcitriol e hipercalciúria. Recomenda-se ingestão moderada, geralmente inferior a 1 g/kg/dia.


Purinas

As purinas são metabolizadas em ácido úrico. A hiperuricosúria pode induzir cristalização de urato ou atuar como núcleo para precipitação de sais de cálcio. O consumo excessivo de carnes vermelhas, vísceras e determinados peixes está associado ao aumento da excreção de ácido úrico.

O controle dietético é fundamental em pacientes com cálculos de ácido úrico ou hiperuricosúria documentada.


Carboidratos

A ingestão elevada de carboidratos simples pode aumentar a excreção urinária de cálcio e oxalato. Alterações no metabolismo do fósforo e aumento do calcitriol podem contribuir para esse efeito. Além disso, muitos alimentos ricos em carboidratos também apresentam teor significativo de oxalato.


Fibras Vegetais

A baixa ingestão de fibras associa-se à redução do citrato urinário. Dietas ricas em vegetais e fibras parecem exercer efeito protetor, possivelmente por melhorar equilíbrio ácido-base e metabolismo mineral.


Gorduras

O excesso de gordura pode aumentar a absorção intestinal de oxalato. Ácidos graxos livres ligam-se ao cálcio no intestino, reduzindo sua disponibilidade para se complexar com o oxalato, favorecendo maior absorção deste e aumento da excreção urinária.


Hidratação

A ingestão adequada de líquidos é uma das medidas mais eficazes na prevenção da recorrência. O aumento do volume urinário reduz a supersaturação e dificulta a agregação cristalina.

Recomenda-se ingestão regular de líquidos ao longo do dia, visando produção urinária suficiente para manter urina diluída.


Conclusão

A nefrolitíase é uma doença multifatorial cuja fisiopatologia envolve interação entre fatores metabólicos, ambientais e dietéticos. A dieta exerce papel determinante na modulação dos componentes urinários envolvidos na formação dos cálculos.

A orientação nutricional deve ser individualizada e baseada em avaliação metabólica completa. Recomenda-se ingestão adequada de cálcio, restrição de sódio, moderação de proteínas animais, controle de purinas, aumento de fibras e hidratação regular.

A adesão ao tratamento clínico e nutricional pode reduzir significativamente a recorrência, diminuir complicações e reduzir custos associados ao manejo da doença.