Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025
O posicionamento conjunto de sociedades brasileiras destaca a importância da saúde cardiometabólica da mulher em todas as fases de sua vida, enfatizando o papel vital das intervenções nutricionais e do estilo de vida. A saúde cardiometabólica é definida como um estado ideal de pressão arterial, lipídios e glicose séricos, que está associado a uma baixa adiposidade e a um risco cardiovascular (RCV) reduzido. Em contrapartida, a má saúde metabólica resulta em uma carga significativa de morbidade e mortalidade relacionada a doenças cardiovasculares, neoplásicas e outras causas.
No Brasil, as doenças cardiovasculares (DCVs) representam cerca de 28% dos óbitos femininos, o que configura um alerta preocupante. Além disso, a prevalência de distúrbios de peso entre as mulheres é alarmante, com 24,8% apresentando obesidade e 38,7% com sobrepeso, totalizando mais de 63% das brasileiras acima do peso ideal.
Reconhecendo a urgência do tema, foi lançado o Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher, resultado de um esforço colaborativo do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DCM/SBC), da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). O objetivo principal é reduzir a lacuna de conhecimento sobre os distúrbios cardiometabólicos que afetam as mulheres ao longo de suas vidas.
A Jornada do Risco Cardiometabólico no Ciclo de Vida Feminino
A diretriz enfatiza que o risco cardiometabólico feminino não é fixo, mas sim dinâmico, variando conforme as fases hormonais, reprodutivas e metabólicas da vida da mulher. Esses marcos influenciam a inflamação, a composição corporal, o metabolismo e até a resposta ao tratamento, o que sublinha a necessidade de um cuidado contínuo que leve em consideração as particularidades de cada etapa da vida da mulher.
Inflamação e Risco Cardiovascular
Alterações hormonais significativas, como as que ocorrem durante a menopausa e em complicações gestacionais (como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia), podem ativar vias inflamatórias que aceleram a aterosclerose, aumentam a rigidez vascular e comprometem a função endotelial. Essas condições também favorecem a isquemia microvascular, um fenômeno particularmente relevante para o risco cardiovascular feminino. Além disso, mulheres com ciclos menstruais irregulares devido a causas endócrinas apresentam níveis elevados de marcadores inflamatórios, aumentando a probabilidade de desenvolver condições como a síndrome metabólica ao longo dos anos.
O Impacto da Menopausa e do Hipoestrogenismo
O declínio dos níveis de estrogênio durante a transição para a menopausa está associado a uma série de mudanças metabólicas significativas, incluindo:
- Aumento da adiposidade central.
- Piora do metabolismo glicídico.
- Elevação dos níveis de colesterol total, LDL-c, triglicerídeos e lipoproteína(a).
- Aumento de marcadores inflamatórios e deterioração da função endotelial.
- Maior sensibilidade ao sódio e ativação do sistema renina-angiotensina.
Essas alterações contribuem para a maior prevalência de hipertensão, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e eventos cardiovasculares na pós-menopausa.
Ciclo Menstrual, SOP e Marcadores Reprodutivos
A avaliação do ciclo menstrual é destacada como um fator importante na diretriz. A idade da menarca, irregularidades menstruais e a síndrome dos ovários policísticos (SOP) são reconhecidas como indicadores significativos de risco futuro. A SOP, em particular, está associada à resistência à insulina, dislipidemia e acúmulo de gordura visceral, criando um cenário inflamatório que favorece a ocorrência de doenças cardiovasculares precoces. Outras condições na fase reprodutiva, como endometriose e histórico de trombose, também estão relacionadas a um aumento do risco.
Gestação como Janela de Risco
A gestação é uma fase fisiológica que pode levar à resistência à insulina, especialmente em mulheres com obesidade pré-gestacional. As principais considerações destacadas incluem:
- A hiperlipidemia gestacional está relacionada à pré-eclâmpsia, parto prematuro e diabetes gestacional.
- O feto exposto a essas alterações pode desenvolver maior risco de aterosclerose no futuro.
- Mulheres com intolerância à glicose durante a gestação apresentam risco elevado de desfechos adversos, mesmo sem diagnóstico de diabetes gestacional.
- O ganho excessivo de peso durante a gestação e sua retenção no pós-parto elevam a dislipidemia e a resistência à insulina.
- Histórico de diabetes gestacional aumenta o risco cardiometabólico ao longo da vida.
Esses achados sublinham a importância de um acompanhamento nutricional especializado antes, durante e após a gestação.
Marcadores Clínicos e Laboratoriais para Rastreio
Indicadores antropométricos, como a circunferência da cintura, perfil lipídico, glicemia, proteína C-reativa e outros marcadores, são fundamentais para avaliar a composição corporal, distribuição de gordura e grau de inflamação, essenciais para estimar o risco cardiometabólico.
Estratégias para Abordar os Distúrbios Cardiometabólicos nas Mulheres
Recomendações Nutricionais Essenciais
A diretriz enfatiza que as intervenções nutricionais devem se concentrar em mudanças sustentadas no estilo de vida, visando reduzir a morbidade e mortalidade associadas aos distúrbios cardiometabólicos. As principais recomendações incluem:
- Qualidade da dieta: Reduzir carboidratos simples e gorduras saturadas, enquanto aumenta o consumo de fibras.
- Padrão alimentar mediterrâneo: Adoção de uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais e azeite de oliva.
- Individualização: As estratégias devem ser personalizadas, considerando o ciclo de vida e comorbidades da mulher.
- Apoio social e políticas públicas: Incentivar dietas saudáveis e atividade física através de programas sociais.
Prática de Atividade Física
A atividade física é fundamental na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares. A diretriz sugere que a combinação de exercícios aeróbicos e treinamento de resistência pode proporcionar melhorias significativas. As recomendações incluem:
- 150 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade moderada, ou
- 75 minutos de atividade vigorosa,
- Associados a exercícios de resistência em pelo menos dois dias por semana.
Estudos indicam que tanto a atividade concentrada em poucos dias quanto padrões de atividade mais regulares estão associados a uma redução similar no risco de mais de 200 doenças, especialmente as cardiometabólicas.
Abordagem Multidisciplinar
A complexidade dos distúrbios cardiometabólicos nas mulheres requer uma abordagem multidisciplinar. Além de nutrição e exercício, intervenções psicossociais, como terapia cognitivo-comportamental e suporte psicológico integrado, são essenciais para promover mudanças sustentáveis no estilo de vida. Outras estratégias incluem a cessação do tabagismo e a moderação do consumo de álcool.
O Problema da Falta de Evidências
Apesar da relevância do documento, a diretriz aponta um desafio crucial na saúde da mulher: a escassez de evidências robustas. Mulheres estão sub-representadas em ensaios clínicos sobre doenças cardiovasculares e cardiometabólicas, levando a recomendações que podem não refletir as melhores práticas para o público feminino. Este posicionamento é um passo importante para aumentar a conscientização sobre essa lacuna e a necessidade de pesquisas específicas.
Referências
Oliveira GMM, Almeida MCC, Valério CM, Giuffrida F, La Espíndola LN, Izar MCO, et al. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250615.
Nota de Responsabilidade:Os conteúdos apresentados no MedOnline têm caráter informativo e visam apoiar decisões estratégicas e operacionais no setor da saúde. Não substituem a análise clínica individualizada nem dispensam a consulta com profissionais habilitados. Para decisões médicas, terapêuticas ou de gestão, recomenda-se sempre o acompanhamento de especialistas qualificados e o respeito às normas vigentes.