Nos últimos tempos, uma nova tendência tem surgido entre os jovens na Coreia do Sul: o chamado dopamine shopping, que consiste em simular compras em sites de mentira. Essa prática, que envolve a criação de páginas e aplicativos que prometem a entrega de produtos que nunca chegarão, tem como objetivo principal proporcionar a sensação de prazer associada ao ato de comprar, sem que haja gastos reais. Embora à primeira vista pareça inofensiva, especialistas alertam que essa simulação pode trazer riscos, especialmente para pessoas com tendências a comportamentos compulsivos.
A relação entre dopamina e compras
A dopamina é um neurotransmissor frequentemente associado ao prazer, mas sua função vai muito além disso. De acordo com o neurologista Diogo Haddad, a dopamina está mais relacionada ao “querer” do que ao “gostar”. Ela desempenha um papel crucial em comportamentos que vão desde a prática de esportes até transtornos como dependência química e vícios. No contexto das compras, a dopamina é liberada não apenas no momento da transação, mas principalmente durante a seleção dos produtos.
A psiquiatra Nicole Rezende explica que o design das plataformas de e-commerce é cuidadosamente elaborado para aumentar o engajamento do consumidor. Elementos como sistemas de pontos, rankings e avatares são utilizados para intensificar a experiência de compra, gerando prazer durante a navegação. O pico de dopamina, segundo ela, ocorre na fase de antecipação, quando o usuário está navegando e comparando preços, não necessariamente quando recebe o produto.
A diferença entre compras online e físicas
De acordo com a psicóloga Tatiana Filomensky, a principal diferença entre comprar em uma loja física e em uma loja online reside na intensidade dos estímulos disponíveis. No ambiente físico, o consumidor precisa se deslocar até o local e interagir com a vitrine. Já no ambiente virtual, os gatilhos de consumo estão presentes de forma constante, com notificações, e-mails e pop-ups que atraem a atenção do usuário.
Essa facilidade de acesso pode potencializar o hábito de compras, elevando o risco de perda de controle financeiro. “Hoje, pelo celular, consigo acessar produtos rapidamente, mesmo que não esteja procurando por eles”, observa Tatiana.
O uso de sites de dopamina: uma faca de dois gumes
Para algumas pessoas, os aplicativos que simulam compras podem ser uma ferramenta útil para o autocontrole financeiro. Nicole sugere que, para aqueles que não têm um diagnóstico de transtorno de compra compulsiva, a simulação pode ajudar a satisfazer o impulso de compra sem gerar gastos reais. A sensação de “você economizou” pode servir como um reforço positivo.
No entanto, para indivíduos que já enfrentam o transtorno de compra compulsiva, essa estratégia pode ser prejudicial. O comportamento de compra compulsiva não é definido apenas pelo ato de pagar, mas sim pelo uso excessivo de compras como forma de regulação emocional. Para esses indivíduos, simular uma compra pode alimentar o ciclo vicioso do transtorno, mesmo sem transações financeiras reais.
Quando as compras se tornam um problema?
Os especialistas alertam que é hora de se preocupar quando as compras começam a ser utilizadas como uma forma de lidar com emoções negativas, como ansiedade ou frustração. Tatiana destaca que a compulsão pode se manifestar em qualquer nível socioeconômico e pode levar a consequências sérias, como endividamento e problemas nas relações pessoais e profissionais.
“A vida de uma pessoa com transtorno de compra compulsiva gira em torno da busca por novos produtos, prejudicando outras áreas de sua vida”, afirma Tatiana. Isso pode incluir mentir sobre as compras ou esconder dívidas, o que agrava ainda mais a situação.
Fatores de risco e a influência das redes sociais
Nicole aponta que as redes sociais desempenham um papel significativo na compulsão por compras. Conteúdos que promovem produtos de forma excessiva e têm links diretos para compra podem ser gatilhos poderosos. Além disso, o consumo de álcool pode diminuir o controle inibitório, aumentando o risco de comportamentos impulsivos.
Quando buscar ajuda profissional?
Se você percebe que o ato de comprar está causando sofrimento emocional e perda de controle, é importante buscar ajuda profissional. Tatiana recomenda que o tratamento inclua acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Enquanto a terapia ajuda a entender o transtorno e a distinguir entre compras saudáveis e compulsivas, o suporte psiquiátrico pode aliviar sintomas de ansiedade e depressão relacionados às dívidas.
Os profissionais de saúde mental ressaltam a importância de identificar gatilhos e contextos de risco, como padrões de uso de redes sociais e consumo de substâncias. Buscar ajuda é fundamental para lidar com comportamentos compulsivos e retomar o controle sobre as finanças e a vida emocional.
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