As infecções provocadas por vírus e bactérias são frequentemente subestimadas no contexto dos fatores de risco para o câncer. Contudo, um estudo recente publicado na revista científica The Lancet indicou que cerca de um em cada oito casos de câncer diagnosticados em 2024 em nível global está associado a infecções causadas por patógenos. Essa descoberta destaca a importância de reconhecer e compreender como determinadas infecções podem influenciar o desenvolvimento do câncer.
O impacto das infecções no câncer
O estudo investigou 12 patógenos diferentes e identificou cinco principais agentes infecciosos que são responsáveis pela maioria dos casos de câncer vinculados a infecções: Helicobacter pylori (H. pylori), papilomavírus humano (HPV), hepatite B, hepatite C e Epstein-Barr. Essa informação é vital, pois muitos indivíduos não estão cientes de que infecções podem ser fatores contribuintes para o câncer. A oncologista Maria Del Pilar Estevez, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, ressalta que a falta de informação sobre essas infecções pode resultar em menor adesão aos programas de prevenção e vacinação. O oncologista Breno Jeha, da Oncoclínicas, também acrescenta que, embora a infecção por esses vírus e bactérias não seja contagiosa, em uma pequena parcela da população, a infecção pode levar ao desenvolvimento de câncer após muitos anos.
Principais patógenos associados ao câncer
1. Helicobacter pylori (H. pylori)
A bactéria Helicobacter pylori é reconhecida como uma das principais causas do câncer gástrico. Segundo o estudo, ela foi associada a aproximadamente 760 mil casos de câncer em 2024, representando cerca de 4% de todos os diagnósticos de câncer naquele ano. A infecção por H. pylori geralmente ocorre durante a infância ou adolescência e está relacionada a condições de higiene e saneamento. Os sintomas mais comuns incluem dificuldade para deglutir, perda de peso, vômitos e dor abdominal. O tratamento normalmente envolve o uso de antibióticos e bloqueadores de ácido, os quais podem ajudar a reduzir o risco de câncer gástrico.
2. Papilomavírus humano (HPV)
O papilomavírus humano (HPV) é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais prevalentes e foi associado a cerca de 750 mil casos de câncer diagnosticados em 2024. Este vírus é responsável por quase todos os casos de câncer do colo do útero e pode também contribuir para outros tipos de câncer, como câncer anal e de cabeça e pescoço. Muitas pessoas portadoras do HPV não apresentam sintomas, o que dificulta a detecção precoce. A vacinação contra o HPV, aliada ao uso de preservativos, é uma estratégia fundamental para a prevenção. Apesar da maioria das infecções por HPV ser assintomática, é essencial realizar rastreamentos regulares, como o exame de Papanicolau, para identificar lesões pré-cancerígenas.
3. Hepatite B e C
As infecções por hepatite B e hepatite C estão ligadas a um aumento do risco de câncer de fígado, devido ao processo inflamatório crônico que essas infecções podem desencadear. O vírus da hepatite B é um vírus de DNA que pode se integrar ao genoma do hospedeiro, enquanto a hepatite C provoca lesões nos tecidos que favorecem o desenvolvimento de tumores ao longo do tempo. A transmissão desses vírus ocorre principalmente por meio do contato com sangue contaminado, tornando essencial a adoção de práticas seguras, como o uso de preservativos e a não partilha de objetos que possam estar contaminados. É importante ressaltar que existe vacina para hepatite B, mas não para hepatite C, que é tratável com medicamentos antivirais.
4. Epstein-Barr (EBV)
O Epstein-Barr é um vírus comum que infecta mais de 90% da população mundial em algum momento da vida. Ele está associado ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo linfoma de Hodgkin e carcinoma da nasofaringe. A infecção por EBV pode levar a uma proliferação descontrolada de linfócitos, aumentando assim o risco de câncer. Os sintomas da infecção pelo EBV incluem febre alta, dor de garganta intensa e inchaço dos gânglios linfáticos. Embora não haja vacina ou tratamento específico para a infecção, o foco deve ser no alívio dos sintomas e no suporte ao sistema imunológico.
Conclusão
A relação entre infecções causadas por vírus e bactérias e o câncer é uma área de crescente interesse e relevância na medicina atual. Aumentar a conscientização sobre esses patógenos e suas potenciais consequências para a saúde é fundamental para a prevenção do câncer. A vacinação e a detecção precoce, aliadas à educação sobre práticas de saúde seguras, podem desempenhar um papel crucial na diminuição do risco de câncer associado a esses agentes infecciosos.
Referências: The Lancet, estudos sobre câncer e infecções.
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