O câncer de cabeça e pescoço é uma condição que abrange uma variedade de tumores malignos que se originam na mucosa da cavidade oral, lábios, laringe, faringe, esôfago cervical, nariz, seios da face, pele e glândulas salivares. Em 2021, esses tipos de câncer foram classificados como o sétimo mais comum no mundo, com mais de 792 mil novos diagnósticos. Pacientes diagnosticados com essa condição enfrentam um elevado risco de desnutrição, devido a dificuldades para mastigar e engolir, perda de apetite e outros sintomas que surgem devido à localização do tumor e à resposta ao tratamento, como quimioterapia e radioterapia.
Recentemente, a Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN) lançou diretrizes para a nutrição de pacientes com câncer de cabeça e pescoço, com base em uma revisão sistemática que analisou 92 ensaios clínicos. O objetivo dessas diretrizes é fornecer orientações para profissionais de saúde, como nutricionistas, enfermeiros, farmacêuticos, médicos e fonoaudiólogos, que atuam no cuidado desses pacientes. A seguir, apresentamos as principais recomendações.
Triagem e Avaliação Nutricional
A ASPEN recomenda a triagem de todos os pacientes para desnutrição no momento da primeira consulta médica e de forma regular durante o tratamento e a recuperação. Para subgrupos de pacientes com risco elevado de desnutrição, pode ser dispensada a triagem caso existam protocolos para encaminhamento automático a um nutricionista.
A avaliação nutricional deve ser realizada utilizando ferramentas validadas na população oncológica, como a Avaliação Subjetiva Global (ASG) ou a Avaliação Subjetiva Global Produzida pelo Paciente (ASG-PPP). A avaliação deve ocorrer quando:
- O paciente foi triado e identificado como estando em risco de desnutrição;
- O paciente foi encaminhado automaticamente devido ao alto risco;
- O paciente possui um dispositivo de acesso enteral, planejado ou já implantado.
Terapia Nutricional no Câncer de Cabeça e Pescoço
Quando Iniciar a Nutrição no Pós-Operatório?
Para adultos com câncer de cabeça e pescoço, recomenda-se o início precoce da nutrição pós-operatória, dentro de 24 horas após a cirurgia, seja por via oral, enteral ou outra forma. É importante ressaltar que a introdução da alimentação oral deve ser discutida com a equipe cirúrgica, nutricionista e fonoaudiólogo, pois pode não ser adequada em determinadas situações. A ingestão oral deve ser aumentada gradualmente, mantendo a nutrição enteral suplementar até que a ingestão oral seja suficiente.
Quando Iniciar a Nutrição Enteral?
Para pacientes que estão sob tratamento com quimiorradiação ou radioterapia, a nutrição enteral deve ser iniciada quando houver evidência clínica de comprometimento da ingestão ou do estado nutricional. Antes de iniciar a nutrição enteral, outras estratégias, como suplementos nutricionais orais e a fortificação de alimentos, devem ser testadas.
Gastrostomia ou Sonda Nasogástrica?
A decisão entre utilizar gastrostomia (sonda PEG ou RIG) ou sonda nasogástrica (SNG) deve ser feita por uma equipe interdisciplinar e deve considerar:
- A situação clínica do paciente, incluindo localização e estágio do tumor;
- A intensidade dos sintomas, especialmente a disfagia;
- O plano de tratamento;
- A situação psicossocial do paciente;
- A duração prevista da alimentação enteral.
Geralmente, a gastrostomia é mais indicada para períodos prolongados (mais de 4 a 6 semanas), enquanto a SNG é mais apropriada para períodos mais curtos.
O que Fazer em Caso de Anorexia?
Para gerenciar a anorexia, recomenda-se o aconselhamento dietético e o manejo de sintomas que afetam a ingestão oral. Um estimulante de apetite pode ser considerado para uso a curto prazo, com a decisão conjunta da equipe médica, nutricionista e farmacêutico especializado em oncologia.
Acompanhamento com Nutricionistas
É aconselhável que adultos com câncer de cabeça e pescoço em tratamento de radioterapia, quimiorradiação ou outras terapias sistêmicas realizem consultas semanais com um nutricionista durante o tratamento e, posteriormente, consultas quinzenais por até seis semanas após o término do tratamento. O objetivo é manter o estado nutricional e a qualidade de vida, prevenindo internações hospitalares e interrupções no tratamento.
Metas Energéticas e Proteicas no Câncer de Cabeça e Pescoço
Energia
Para adultos com câncer de cabeça e pescoço, recomenda-se uma ingestão energética mínima de 30 kcal/kg/dia. Este valor deve ser estimado com base no peso corporal atual, uma vez que não há evidências suficientes que justifiquem a individualização com base na composição corporal, exceto em casos de obesidade.
Os profissionais devem monitorar frequentemente indicadores de adequação energética, como ingestão nutricional, peso, estado nutricional, massa muscular, força muscular e desempenho físico.
Proteína
A ingestão proteica deve variar entre 1,2 a 1,5 g/kg/dia, utilizando alimentação oral, suplementos nutricionais orais e/ou nutrição enteral. Essa ingestão deve ser ajustada de acordo com a intensidade dos sintomas, estado nutricional, plano de tratamento e aspectos psicossociais. A estimativa deve ser feita com base no peso corporal atual, mas em pacientes obesos, pode-se utilizar o peso corporal ideal como referência, sempre com julgamento clínico.
Nutrientes Específicos
As diretrizes também abordam o uso de nutrientes específicos no tratamento do câncer de cabeça e pescoço:
- Glutamina: pode ser aceitável para reduzir a gravidade da mucosite oral e melhorar a conclusão do tratamento, mas a glutamina parenteral não é recomendada devido a preocupações de segurança.
- Arginina: pode ter benefícios potenciais na sobrevida e na redução de fístulas, embora as evidências sejam limitadas.
- Ômega-3: a suplementação não é prejudicial e pode ser considerada, apesar de evidências inconsistentes sobre seus benefícios.
- Nutrientes combinados/imunonutrição: provavelmente não são prejudiciais e podem ser utilizados.
Para mais informações detalhadas, recomenda-se a leitura completa das diretrizes, onde os tópicos abordados são discutidos com mais profundidade, incluindo intervenções fonoaudiológicas e abordagens multidisciplinares.
Referência: Kiss N, Findlay M, Frowen J, Lewis WE, Mills J, Singh AK, Church DD, Mey JT, Peterson S, Aguzzi K, Bellini S, Coelho MPV, Cordwin L, Duffy M, Hager S, Mundi MS, Owen-Michaane M, Price K, Stanner H, Storm B, Udagedara M, McKeever L. Guidelines for nutrition in adults with head and neck cancer: The American Society for Parenteral and Enteral Nutrition. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2026 Apr;50(3):274-338. doi: 10.1002/jpen.70067.
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